Há certos dias que me fazem pensar que já não há salvação possível para alguns elementos da nossa sociedade. Hoje foi está a ser um desses dias.
Vou passar a relatar a minha experiência do dia de hoje. Reparem que escrevo isto às 15:00, pelo que ainda só passou sensivelmente metade do dia. Então não é que, ao sair de casa, dirijo-me calmamente para apanhar o autocarro, dado que ia trabalhar. O autocarro chega, eu entro, e duas três paragens mais à frente entra um senhor nos seus 40 e poucos anos. Este senhor todos os dias apanha o mesmo autocarro que eu, e todos dias tem o seguinte comportamento: ultrapassa toda a gente que está na paragem para ser o primeiro a entrar, escolhe um lugar que tenha uma pessoa do sexo feminino ao lado (mesmo havendo lugares vazios), e pede-lhe para o deixar passar/sentar.
Um pequeno parêntesis: detesto pessoas que se querem sentar ao lado das outras só porque sim. Eu quando entro num autocarro, se houver lugares sem ninguém ao lado, sento-me nesses. Porque é que as outras pessoas não fazem o mesmo? Enfim.
Até aqui nada de muito estranho, uma vez que vai no autocarro, pode ir para longe, convém sentar-se não é? "Sim David, estás a implicar com o senhor só porque sim!" dirão vocês. Pois, mas não, porque a parte estranha é esta: ele está sempre vestido com a mesma roupa, fala sozinho, e ao sentar-se começa a embalar-se de trás para frente, e faz isto durante a viagem toda! Ah, e para além disto, tem ar de ser daquelas pessoas tomam banho só quando há um casamento real. "Sim David, ok, isso é estranho, mas ele pode ter problemas, não ter dinheiro, qualquer coisa assim!" complementarão vocês. Pois, mas hoje atingiu um novo nível: sentou-se ao lado de uma senhora mais velha, e esta senhora mal ele se sentou levantou-se e foi para outro lugar, o que por sua vez provocou uma ira no senhor que gritou "DESCULPE TÁ?" e chamou outra senhora mais velha para o pé dele "VENHA PARA AQUI MEU AMOR!"...
Passando este acontecimento, eis que na paragem anterior à minha, entra uma rapariga com idade de andar na faculdade, que se dirigiu para os bancos de trás do autocarro, onde andam os miúdos fixes. E como qualquer miúdo fixe, trazia uns fones na cabeça! Nisto, vem um senhor com os seus 70 anos, e grita isto "TIRA O CAPACETE PÁ! LÊ UM LIVRO!" e senta-se ao pé da tal rapariga. A partir daí começa a dar-lhe uma descasca que ela está a perder o mundo porque está a ouvir música. Eu, que por acaso estava na fileira de bancos imediatamente a seguir à última (sou fixe, mas não sou assim tão fixe para o banco de trás! Mas aparentemente o velhote é), virei a cara para trás para ver se ele lhe ia bater ou algo desse género. Nisto, a rapariga tira os fones e diz ao senhor: "Sou estudante, estou a ouvir aulas gravadas", algo que deu início a uma conversa que já não pude acompanhar porque entretanto saí do autocarro. "Mas que porra tem o velhote a ver com o que a miúda faz?" pensei eu. Mas fui trabalhar.
À hora de almoço, fui almoçar a casa. Ao chegar à rua onde habito, vejo uma senhora sensivelmente da minha idade a passear o seu cãozinho. Nisto, o cãozinho (doravante conhecido como Piloto, porque Piloto é nome de cão) preparava-se para cagar em pleno passeio! "Já sei o que vais dizer David, o Piloto cagou no passeio e a dona não apanhou" interromper-me-ão vocês, caros leitores interventivos. Mas não! Não foi SÓ isso que aconteceu! A dona, não contente com o seu Piloto porque ia cagar no passeio, empurrou-o para a estrada, e ele cagou na estrada. E ela deixou lá o cócó. Mas hey, não cagou no passeio! Nice move, senhora. Ironicamente, na minha rua, os passeios têm escrito "Não deixe cócó de cão no passeio".
Finalmente, a última situação do dia, e a que me revoltou mais. Um senhor (que doravante vai passar a ser chamado de besta) ia a passear o seu Piloto na minha rua (na minha rua há muitos Pilotos) e às tanta grita para o cão "BORA!". E o cão, porque é isso mesmo - um cão, não o entendeu e continuou a fazer o que já estava a fazer, que era cheirar o chão e assim. Nisto, o besta espeta-lhe um grande biqueiro na tromba e grita-lhe "JÁ TE DISSE QUE É PARA IR EMBORA!". Mas quando digo um grande biqueiro, é mesmo um grande biqueiro - isto tudo a um metro de mim. Quando vejo isto a acontecer, digo isto alto para o senhor "Foda-se, mas está doido ou quê?" e o besta, por vergonha ou medo ou simplesmente porque é um grande cobarde, não respondeu e continuou a andar, e eu fiz o mesmo. Ainda o ouvi, já ia eu mais à frente, a dar uma palmada ao cão e a repetir a frase anterior.
E é isto a sociedade em que vivemos. Sim, pode ter sido um dia mau, em que aconteceu tudo ao mesmo tempo, mas mesmo assim não pude deixar de partilhar convosco. Apesar de se calhar ser apenas um dia mau, inúmeras são as vezes em que vemos pessoas a escarrar para o chão, deitar lixo em todos os sítios menos no lixo, etc etc. Como é que chegámos a isto?